Por Nayara Nunes
No Trem de Ler deste mês, eu quero falar de um livro que chegou até mim por um caminho de afeto, mas me deixou diante de uma leitura dura, incômoda e necessária.
O livro é As Nove Páginas de Alberto Silva, de Ádlei Carvalho.
Eu conheci o Ádlei no mundo animal aqui em Belo Horizonte. Quem vive esse universo sabe que algumas pessoas chegam por causa de um resgate, de um pedido de ajuda, de um animal em situação difícil, e acabam ficando na nossa história de outro jeito. O Ádlei se tornou padrinho de um dos gatinhos deficientes que eu resgatei e, depois, adotou comigo a Lolô – justamente pela sua expressão de tristeza e necessidade de cuidado, uma adoção extremamente tocante.
Então, antes de chegar até mim como autor, ele já tinha chegado como alguém presente em uma rede de cuidado, de pessoa que não abandona.
Talvez por isso a leitura tenha me atravessado tanto.
Porque As Nove Páginas de Alberto Silva não é um livro confortável. Ele começa nos colocando diante de um cárcere escuro, sujo, sem banheiro, sem cama, sem janela. Um espaço onde um homem é reduzido ao cheiro de mofo, latrina, feno ensanguentado, fezes, fome, sede e silêncio.
A sinopse já anuncia uma imagem difícil de esquecer: Alberto Silva tentando entender o tempo pela fresta de uma portinhola, esperando a luz entrar mais forte ou mais fraca para imaginar se ainda era manhã ou se o dia já tinha ido embora.
Isso me pegou muito.
Porque não é apenas uma cena sobre prisão. É uma cena sobre apagamento.
Quando alguém perde a janela, perde também a referência do mundo. Quando perde o banheiro, a cama, a comida digna, o contato humano e a noção do tempo, não estão apenas prendendo seu corpo. Estão tentando destruir sua dignidade por dentro.
E é aí que o livro cresce.
Ele não fala apenas de um homem encarcerado. Ele fala de um regime que transforma espaços em instrumentos de tortura. Fala da violência política que não precisa apenas matar para destruir. Às vezes, ela quebra uma pessoa aos poucos, pela fome, pelo escuro, pelo cheiro, pela espera e pelo abandono.
E eu acho que algumas leituras são importantes justamente porque não nos deixam escapar.
Este livro me fez pensar sobre memória. Sobre o que acontece quando uma sociedade tenta empurrar suas violências para um cômodo escuro, como se aquilo pudesse desaparecer. Sobre quantas histórias foram trancadas, silenciadas, desacreditadas ou deixadas sem testemunha.
No Trem de Ler, eu não quero apenas resumir livros. Quero falar sobre o que eles movimentam na gente.
E As Nove Páginas de Alberto Silva movimentou em mim uma pergunta muito simples e muito difícil: “O que ainda resta de uma pessoa quando tudo ao redor foi feito para arrancar dela a força de continuar?”
É um livro para quem gosta de literatura que incomoda, que provoca, que mexe com a memória e que nos lembra que certas páginas não terminam quando a leitura acaba.
Algumas continuam abertas dentro da gente.
Se você gosta de histórias intensas, atravessadas por memória, violência política, resistência e humanidade, procure As Nove Páginas de Alberto Silva, de Ádlei Carvalho.
Essa foi a viagem do mês no Trem de Ler.
E eu termino com uma sugestão: não leia esperando alívio. Leia esperando ser confrontado.
Por Nayara Nunes
Tem livros que você lê, e tem livros que te leem.
Louças de Família é do segundo tipo.
Eu peguei esse livro em novembro.
Terminei agora, alguns poucos dias antes de 15 de maio de 2026.
Não porque é longo, ele é curto. Não porque é difícil, ele é límpido.
Mas porque tem páginas que a gente precisa fechar, respirar, olhar pro teto, e só depois de um tempo, às vezes dias, conseguir virar.
Engasgada fiquei do começo ao fim.
Eliane Marques começa pelo fim, sobre tia Eluma, e essa escolha não é acidente. Porque a vida de uma mulher negra, doméstica, criada no batuque e enterrada na Universal, raramente começa pelo começo. Ela começa quando alguém resolve olhar pra trás e perguntar: quem foi essa mulher antes de ser invisível?
A narradora pergunta. E ao perguntar, puxa um fio.
Esse fio atravessa gerações de mulheres que limparam o sangue das vacas da fronteira, lavaram a roupa suja dos brancos nos arroios, e carregaram dentro do corpo uma língua que não era só uma, a era portuguesa, espanhola, iorubá, literária. Uma língua que sobreviveu porque foi guardada onde ninguém pensa em procurar: na boca das subalternas.
O armário de louças do título é uma imagem perfeita demais.
Louça é o que se guarda. O que se mostra nas visitas. O que não se usa no dia a dia pra não quebrar, coisa de Domingo.
Mas louça também quebra e, quando quebra, corta.
Dentro desse armário estão todos juntos, os tiranos e subalternizados, negros e brancos, os que herdaram e os que foram herdados. A família como ela é de verdade: não uma unidade, mas um campo de disputa. Um lugar onde o amor e a violência dividem a mesma prateleira.
A pergunta que atravessa o livro inteiro não é quem silenciou tia Eluma.
É o que fazemos com o que herdamos.
A narradora herda a memória. Herda a língua. Herda o fio. E abandona (ou tenta abandonar) o silêncio que foi passado junto.
Esse é o gesto literário mais honesto que existe para mim, é não romantizar a ancestralidade, mas também não a desperdiçar.
Eu demorei seis meses pra terminar esse livro.
E sabe o que é estranho? Não me arrependo nem um pouco da demora.
Cada pausa foi necessária. Cada engasgo foi o livro fazendo o trabalho que ele veio fazer, tudo na hora certa, da forma que pude.
Tem textos que a gente consome, como um pote de sorvete em dias difíceis, esse aqui me consumiu e foi no melhor sentido possível.
Louças de Família é o tipo de livro que o Trem da Dum existe pra encontrar. Porque atravessa. Ele me atravessou de uma forma!
Não pelo barulho, mas pela precisão. Cada palavra no lugar certo, cada silêncio calculado, cada língua convocada na hora exata.
É literatura que sabe de onde vem e não tem vergonha nenhuma disso.
"Forjando-se no terreno avermelhado pelo sangue das vacas."
Meus Deus, quanto isso significa?
Quando uma escritora abre um livro assim, você já sabe que vai sair diferente do outro lado.
Por Nayara Nunes
Li este livro pela primeira vez há mais de 20 anos. Na casa que eu cresci, tinha um quartinho de bagunça, como na maioria das casas dos anos 90. Dentre as bagunças, muitos livros perfeitos para mentes curiosas, mas não para a idade que eu tinha. Eu li Sangue de Coca-Cola e não entendi nada, achei uma loucura total, mas aquele livro ficou na minha memória como algo a ser compreendido. Anos mais tarde, eu desenvolveria o ritual de ler o mesmo livro tempos depois, mas com a cabeça já calejada de viver nesse mundo esquisitíssimo. Fui ao famoso sebo do Maletta, achei um exemplar dele e “comi” o livro inteiro.
Sangue de Coca-Cola é um romance do escritor mineiro Roberto Drummond, publicado em 1980. O romance atravessa a decadente ditadura militar brasileira misturando realidade e fantasia em uma narrativa alucinada. Tudo começa com uma ideia absurda e precisa: o Brasil teria tomado Coca-Cola com LSD e entrado em uma “bad”, isso tudo em um 1º de abril (oficialmente o Dia da Mentira. Engraçado, né?). A partir daí, a história se constrói entre personagens reais e fictícios, sem respeitar fronteiras claras entre fato e imaginação. O livro não tenta explicar a ditadura, ele distorce. Usa humor, exagero e uma linguagem quase lisérgica para mostrar repressão, consumismo e influência cultural estrangeira.
A estrutura fragmentada e as pausas que imitam propaganda não são detalhe, são críticas claras.
E foi só nessa segunda leitura que tudo começou a fazer sentido. Não porque o livro ficou mais simples, mas porque eu fiquei mais preparada para ele. A lógica ali não é linear, é alegórica e não no sentido clássico, de uma metáfora com significado fechado. É uma alegoria no sentido que Walter Benjamin propõe: feita de fragmentos, de excessos, de coisas que não se encaixam completamente.
O romance funciona como um mosaico. As partes se conectam, mas também se contradizem. Não há uma mensagem única, há tensão. E essa confusão não é falha - é forma. É exatamente assim que aquele momento histórico se apresentava: sem clareza, sem direção, sem um inimigo facilmente identificável.
Talvez por isso eu não tenha entendido nada na primeira leitura. E talvez por isso tenha entendido tudo na segunda. Porque esse não é um livro que se decifra, é um livro que te coloca dentro do caos e espera que você aguente ficar lá.